– Sempre a calar – Gottfried Benn 1886-1956

Tu nos reinos finais,

Tu na luz terminante,

Não há luz nem no mais

Branco e imoto semblante.

Eis os lamentos teus,

Eis tu, de ti isento,

Eis então Deus, o Deus

A desatar tormento.

 

De tempos indizíveis

Alguém te destruiu,

Gritos, canções audíveis,

contigo, junto ao rio,

Trópica mata às traças,

Selvas do fundo mar,

Sussurros cinza, espaços

Hão de os levar.

 

Antigo o teu ardor

E o sol e a noite escura,

Tudo: sonho e temor

Pensados na Loucura.

Sempre a finar, além,

Tu, mais puro, afundando,

Sempre a calar, ninguém

Esperando ou chamando.

(Tradução: Márcio Gomes Benito)

 

Immer schweigender –

 

Du in die letzten Reiche,

du in das letze Licht.

ist es kein Licht ins bleiche

starrende Angesicht,

da sind die Tränen deine,

da bist du dir entblößt,

da ist der Gott, der eine,

der alle Qualen löst.

 

Aus unennbaren Zeiten

eine hat dich zerstört,

Rufe, Lieder begleiten

dich, am Wasser gehört,

Trümmer tropischer Bäume,

Wälder vom Grunde des Meer,

grauendurchrauschte Räume

treiben sie her.

 

Uralt war dein Verlangen,

uralt Sonne und Nacht,

alles. Träume und Bangen

in die Irre gedacht,

immer endender, reiner,

du in Fernen gestuft,

immer schweigender, keiner

wartet und keiner ruft.

One Year Ago—jots What? – Emily Dickinson

Há um ano atrás – Emily Dickinson

Há um ano atrás – Que anotas?
Deus – Soletra! Eu – cedo –
Era Graça? Não –
Era Glória? Tal – será –
diz devagar – Glória –

Tal aniversário dar-se-á –
de tempo em tempo – não sempre – na Eternidade –
quando, do que a Dor Comum, mais separado, –
Olhar – e de faces alimentar-se  – pois
em duvidosa ceia, se possível for
ser seu Banquete verdade –

Provei – mas negligente – então
Não sabia que o Vinho
viera ao Mundo – E tu?
Ah, sim, já mo contaste –
A Sede empolaria – fácil – agora –
Feriu-te – ao máximo – disseste –
Em mim – um bolotado Peito –
E não podia saber como se cresce o afeto
em Rudes Vestes –
Talvez – pudesse –
Mas, tivesses visto –
um Titã – olho a olho contigo, teria sido –
Sem bolota – então –

Ademais – doze meses atrás –
De repente –
Faltou-nos Ar-
Qual era o marco?
Este – O paciente –
Pois era uma Criança, claro –
e Incomensurável – Ar?

Se ser um “Velho” – fosse a dor –
já sou demais, hoje, certo estou – então –
Tão quanto tu – Pra quando?
Mais um – Aniversário – ou Dez?
Deixe que – escolha!
Ah, Deus, Não!

————
Tradução: Márcio Benito


One Year Ago—jots What? – Emily Dickinson

One Year ago—jots what?
God—spell the word! I—can’t—
Was’t Grace? Not that—
Was’t Glory? That—will do—
Spell slower—Glory—

Such Anniversary shall be—
Sometimes—not often—in Eternity—
When farther Parted, than the Common Woe—
Look—feed upon each other’s faces—so—
In doubtful meal, if it be possible
Their Banquet’s true—

I tasted—careless—then—
I did not know the Wine
Came once a World—Did you?
Oh, had you told me so—
This Thirst would blister—easier—now—
You said it hurt you—most—
Mine—was an Acorn’s Breast—
And could not know how fondness grew
In Shaggier Vest—
Perhaps—I couldn’t—
But, had you looked in—
A Giant—eye to eye with you, had been—
No Acorn—then—

So—Twelve months ago—
We breathed—
Then dropped the Air—
Which bore it best?
Was this—the patientest—
Because it was a Child, you know—
And could not value—Air?

If to be “Elder”—mean most pain—
I’m old enough, today, I’m certain—then—
As old as thee—how soon?
One—Birthday more—or Ten?
Let me—choose!
Ah, Sir, None!

Split the Lark

Tradução de um poema de Emily Dickinson seguido de uma brevíssima análise.

Reparte a Ave – e a Música acharás –

Bulbo após Bulbo, em Prata envolvida –

Pouco versada à Manhã de Verão,

Dada, quando velho o Alaúde, ao teu Ouvido –

Livra o Fluxo – e verás que é patente –

Jorro após Jorro, só a ti reservado –

Ato Escarlate! Cético Tomé!

Ainda duvidas que a Ave era verdade?

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Split the Lark ‑ and youʹll find the Music ‑

Bulb after Bulb, in Silver rolled ‑

Scantily dealt to the Summer Morning

Saved for your Ear, when Lutes be old ‑

Loose the Flood ‑ you shall find it patent ‑

Gush after Gush, reserved for you ‑

Scarlet Experiment! Sceptic Thomas!

Now, do you doubt that your Bird was true?

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Cristianismo, musicalidade, forma em quartetos, palavras exatas. O poema acima da poetisa Emily Dickinson representa muito bem seu modo de fazer poesia. 

Nos versos acima o que vemos é a eucaristia transformada em poesia. Quem nos dá essa chave de interpretação do poema é o cético Tomé, aquele que precisa ver para crer, nesta poesia também ouvir para crer.  É ele quem nos faz ver que o poema é cristão, que existe algo além da ave e da música. Assim, reparte-se a Ave, o pão poético eucarístico, para aí encontrar a Música, a música divina. Mas não é qualquer ave que é repartida, é a ave que representa a alegria, a cotovia.(“Lark”, traduzindo do inglês para o português, é tanto ‘diversão’ quanto ‘cotovia’.) Não a cotovia comum, a que anuncia o dia, que Emily Dickinson retrata, é uma outra, a que é “Pouco versada à Manhã de Verão”, e que é “dada, quando velho o Alaúde, ao teu Ouvido”.  É aquela que é “dada.. ao teu ouvido” quando o alaúde (o nome científico da cotovia é ‘Alauda arvensis’) ficar velho. Ou seja, quando a música comum não puder mais ser escutada, restará apenas uma. É Cristo feito cotovia (corpo) e repartido na música da poesia (sangue).

Enfim, para sentir que o corpo é patente (o corpo poético da Cotovia-Cristo) é necessário deixar fluir o fluxo da música divina, deixar fluir o seu sangue, “jorro após jorro”, “só a ti reservado”, cético leitor. De modo que seja um “experimento escarlate”. “Este é meu corpo, este é meu sangue”. Quando perceber isso restará apenas uma pergunta, “cético Tomé”:

“Ainda duvida que a Ave era verdade?”

– Jerusalém – William Blake (1757-1827) –

Será que Andou aqui, nos tempos idos,
sobre as verdes montanhas da Inglaterra
o Cordeiro de Deus, talvez foi visto
nos agradáveis pastos da Inglaterra?

E será que o Semblante do Divino
Brilhou sobre as colinas em neblina?
E aqui Jerusalém, pois, construída
entre os negros moinhos demoníacos?

Tragam-me o arco de ouro flamejante!
Tragam-me as flechas do desejo, logo!
E a lança! Ó nuvens, abram o horizonte!
Tragam-me a carruagem que é de fogo!

De meu combate não desistirei,
nem esta espada cairá por terra,
até que esteja em pé Jerusalém
nos agradáveis pastos da Inglaterra.
(tradução de Márcio Benito)

Original em inglês:
– Jerusalem –

And did those feet in ancient time
Walk upon England’s mountains green?
And was the holy Lamb of God
On England’s pleasant pastures seen?

And did the Countenance Divine
Shine forth upon our clouded hills?
And was Jerusalem builded here
Among these dark Satanic Mills?

Bring me my bow of burning gold!
Bring me my arrows of desire!
Bring me my spear! O clouds, unfold!
Bring me my chariot of fire!

I will not cease from mental fight,
Nor shall my sword sleep in my hand,
Till we have built Jerusalem
In England’s green and pleasant land.

Tradução de um poema de W. H. Auden

Como o dia de hoje é lembrada a morte do poeta W. H. Auden, um dos meus preferidos, resolvi fazer a tradução de um de seus poemas. Deixo abaixo minha tradução e depois o original.

– Aquele que mais ama – (poema de W. H. Auden)

Sei muito bem, olhando para estrelas,
do que se faz se pode ir ao inferno,
mas na Terra a frieza é o de menos
a temer vindo do homem ou da fera.

Como então poderemos devolver
a paixão que nos dão essas estrelas?
Se não se pode ter paixões iguais,
então que seja eu quem ame mais.

Louvador como penso, pois, que sou
de estrelas que não ligam nem um pouco,
não posso, enquanto as vejo, lhes dizer:
Sinto falta daquela a todo tempo.

Sumissem ou morressem as estrelas
deveria aprender a ver o céu
vazio e assim sentir a vasta treva
sublime, embora isso tome tempo.

(tradução – Márcio Benito))

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The More Loving One

W. H. Auden, 1907 – 1973

– Looking up at the stars, I know quite well
That, for all they care, I can go to hell,
But on earth indifference is the least
We have to dread from man or beast.

How should we like it were stars to burn
With a passion for us we could not return?
If equal affection cannot be,
Let the more loving one be me.

Admirer as I think I am
Of stars that do not give a damn,
I cannot, now I see them, say
I missed one terribly all day.

Were all stars to disappear or die,
I should learn to look at an empty sky
And feel its total dark sublime,
Though this might take me a little time.

Recomendações para títulos de mestrado no Brasil

‘Chi-marrom, Che!’
Um estudo da influência do chimarrão gaúcho nas artes da cromoterapia e da yoga praticadas pela medicina de Che-Guevara.

‘As melhores Marx de roupa’
Por que as roupas com símbolos marxistas são tão vendidas no Brasil.

‘Quem te viu, quem te freud!’
Como a visão estimula a libido.

‘Kant comigo!’
Letras de música baseadas em razões práticas.

‘De Hegel pra lua.’
Estudo dialético da sorte.

‘Quando o russo Rousseau.’
A influência da literatura romântica francesa na Rússia do século XX.

‘Meia volta, Voltarie.’
Como Voltarie contribuiu para a revolução francesa e como esta contribuiu para a fama de Voltarie.

‘Se for lixo, Descartes.’
Do “sou, logo existo” ao materialismo.

‘A granja e o Gramsci.’
Fábulas para a extrema-esquerda.

‘Tirando um Sartre’
O humor no satanismo

‘Dadá Dedé Didi-derot’.
Apresentação de uma atrapalhada enciclopedia para crianças.

‘Ai, que Boff.’
Um estudo sobre a teoria da libertação LGBT.

‘Vá para o Heidegger os parta’
O existencialismo dos abortistas.

‘Sai, Chomsky daqui!’
O gerativismo na briga de casais.

‘De Hobbes a Hobsbawm’
Um estudo do roubo praticado pelo Estado.
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‘Lenin quer, malmequer’
Como despetalar uma nação.

‘Os mano, demasiados mano’
O eterno retorno de Nietzsche no rap brasileiro.

‘O cravo brigou com Espinoza’
O uso da música barroca e da filosofia herética como coadjuvantes no tratamento de problemas dermato-lógicos.

‘Adorno-Hegel’
Filosofia estética para proctologistas.

‘Os negativos de Comte’
As fotografias que Augusto escondeu.

‘Quem pipoca perde o Bacon’
Tentativas de explicações científicas sobre o medo de comer alimentos gordurosos.

‘Ah, mãe, dei-Chauí, vai?!’
Um estudo sobre o terrorismo praticado por crianças da classe média.

‘Mas só tem Locke nesta porra??’
A maluquice política das aulas de sexologia

‘Os piás de Piaget’
Manual para o desenvolvimento de pequenos capetas.

‘Tatoo, tabu, tá Beauvoir’
O problema das tatuagens de gênero para um segundo nexo.

‘Eu não estou, mas Wittgenstein’
Problemas acerca da localização da linguagem

‘Os jeans justificam os seios.’
Maquiavel para princesas feministas.

‘Beijou, trepou e se Foucault’
Uma história da loucura de quem pegou DST.

– A Terra do Nunca –

Era uma vez em uma terra do nunca, fora do eixo…

Crocodilo era amigo da Sininho
que também era amigo de um fulano
chamado Peter Pan Americano.
Os três eram de um bloco muito íntimo:

O primeiro era parte de um governo
marítimo; a segunda dava o toque
de aportar; o terceiro era o reboque
para um jogo no rio. (Em fevereiro

o barco irá afundar). Depois a fada
falou: ” – O pão e o circo, o jogo e a fome
são o que mais sustentam o nosso nome.
Se alguém quiser Lacoste esse terá

de olhar o sol, que é o nosso cofre forte.”
Então alguém, de tanto calcular,
pensou: “- Dó ré mi fá… só caviar?”
“- Elementar, meu bem, meu caro Watson”.

 

– Revistando a chapeuzinho-vermelho –

Chapeuzinho-vermelho foi pra Cuba
ouvir a enganação do lobo mau:
– Pra que olhos tão grandes, mestre-cuca?
– Me diga, conseguiu o Capital?

– Mas é claro que sim, querido russo.
E foi tudo tão fácil, de uma vez.
Recebi de um trocado, ‘sem destino’,
que deram a um restaurante português.

Nesta história tão linda, de verdade,
ninguém perdeu viagem por mentir.
Se queres entender salubridade
perguntes ao cachimbo do Saci.
E isso fiz:
“- Que mula-sem-cabeça nos governa?”
(E jogava fumaça para o ar)
O Saci, saltitando em uma perna,
disse: ” – Macunaíma, Ursa Polar,
escute este elixir: Vosso dinheiro
será jogado fora, e o que existir…”

E eu disse: “- Pelos céus, tão constelado
estou…até ga-ga-gaguejo vês?”
E nessa condição surgiu a voz
do mestre-cuca (tsc, mais uma vez):
“- Se queres medicina lamba a fuça;
melhor do que a vacina do burguês.
De tudo que juntastes fiz um porto
vermelho e o que sobrar é porco morto”

E assim Macunaíma ficou bravo
e adoeceu de tanto acreditar.
(Depois de mil promessas canta o galo
avisando que ‘o gigante foi pro mar’:

“Ouviram do Ipiranga às márgens plácidas
de um roubo heróico um gato saltimbanco
e um punho levantado em pose estúpida
brilhou pelos jornais naquele instante”)

“Psiu! Quieto… olha o lobo mau!…proponho,
amigo, conversar em outra língua”
” -Em qual?” – “Talvez do pê, assim: pê olha
pê o pê sol pê como brilha… Ih!
saltei uns pês” “- Não tem problema. É vício
comunal. Veja o lobo com uma carta
na manga em sarabanda porque” “-Psiu!”
“- pe-car, pe-ta, p k p π p tal.”

– As lixas –

I- O banho dos ladrões

Na única central, lixando as próprias
unhas, dois homens falam sobre grana:

“- Oba! A maré subiu. Vamos nadar
no mar de lama? A lua está pra nós,
sorrindo como nunca, veja lá!”

“- Oh, céus! Porei a minha sunga nova,
a mesma do dinheiro, já lavado,
que seca em nossa copa. Espera só.”

“- Do super-homem?” “- Isso. Vou buscar.”

E aquela dupla se banhou de um modo…

II – A árvore

E agora como foi no xilindró:

Então, estando presos nessa lama,
na areia movediça de uma história,
buscaram o quebra-galho que tem fama
de ter a folha em sítio “que é uó”:
“- Brindemos esse banner que reclama
da corda que nos serve de cipó,
pois estamos saudosos de uma cama
decente.” E todo mundo: “- Ai, que dó
dessa gente.” E no fim chamaram a Dama.

III – O canto do jogo

Não gosto de xadrez. É muito triste
ver dois homens pensando nessas grades
e arrecadando peças para o vício
com o dinheiro do povo em cheque-mate;
mas tais presos são reis, e contam fichas
de crime em tabuleiro num cuidado…
se lixam para nós. “- Fiquei bonito
de esmalte?” “- Sim, com o punho levantado,
cantou a manicure do partido.”
“- De qual?” ” – CUTí – colí, CUTí- culá”

– História do Gancho –

Capitão Gancho virou presidente
de uma nação sem estudo e sem Cristo.
Roubou todo mundo. E o povo, doente,
foi para as ruas gritando por isto:
“Queremos mais ganchos pelas cidades
a pendurar os impostos e os vistos”
O que se viu?Hum…foi algo sinistro:
molotov no preço do tomate
e a verdade caindo pelos quintos.

Então o tempo foi passando… até
que os metros confudissem no metrô.
“-Alô!? – Alô! – Quem é? – É o TCC!
Pra concluir o nosso curso tem
de chegar até você. “Ok, feito!”
E o capitão, com uma estrela no peito,
atendeu e aumentou o IPTU.
O povo sorriu, muito satisfeito,
sem entender política direito.
[País dos canhotos – tomate cru.]

Moeda paulista – Guilherme de Almeida

Moeda Paulista, feita só de alianças,
feita do anel com que Nosso Senhor
uniu na terra duas esperanças:
feita dos elos imortais do amor!

Quanto vale essa moeda? Vale tudo!
Seu ouro eternizava um grande ideal:
e ela traduz o sacrifício mudo
daquela eternidade de metal.

Ela, que vem na mão dos que se amaram,
Vale esse instante, que não teve fim,
em que dois sonhos juntos se ajoelharam,
quando a felicidade disse: SIM.

Vale o que vale a união de duas vidas,
que riram e choraram a uma só voz
e, simbolicamente desunidas,
vão rolar desgraçadamente sós.

Vale a grande renúncia derradeira
das mãos que acariciaram maternais,
o menino que vai para a trincheira,
e que talvez… talvez não volte mais…

Vale mais do que o ouro maciço:
vale a glória de amar, sorrir, chorar,
lutar, morrer e vencer… Vale tudo isso
que moeda alguma poderá comprar!